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As ferramentas de um jovem escritor em Paris, na década de 1920. |
Quem se dedica a escrever livros, mesmo que de modo paralelo ao seu ofício principal, cedo ou tarde fará amizade com outros escritores, trocando livros e opiniões a respeito de projetos literários. Se outras afinidades estão em jogo - como apreciar carros esporte - então a liberdade para criticar e aconselhar é maior, na mesma proporção do querer bem ao próximo.
Meu primeiro livro contou a história do MP Lafer - um carro esporte com linhas nostálgicas, claramente inspiradas nos antigos roadsters ingleses. Enviei um exemplar para o jornalista Arnaldo Keller, editor do site AUTOentusiastas. Dele recebi uma cópia da coletânea “Um Corvette na noite e outros contos potentes” - uma leitura escapista que renderia ótimos filmes de aventura.
Certa vez escrevi um artigo rocambolesco sobre a minha experiência de vender livros num encontro de carros antigos em Águas de Lindóia. Do altar da minha autossuficiência como escritor e editor, acreditava que havia produzido boas linhas de entretenimento - de fato recebi bons comentários sobre o texto. Então encaminhei o link para o Keller.
Ele respondeu que um bom amigo não diz apenas o que a gente quer ouvir, mas o que precisamos ouvir. Quando se dá uma bronca em alguém, a melhor tática é assoprar antes do tapa, diferentemente de quando a intenção é golpear de fato. Li que tinha potencial para ser um bom contista, mas que necessitava ser mais conciso e direto no assunto para contar uma história relevante.
A mensagem se encerrou com a recomendação para ler Ernest Hemingway, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1954 que incompreensivelmente tirou a própria vida em 1961, depois de ter servir como voluntário na Primeira Guerra Mundial, ser correspondente de jornal durante a Guerra Civil Espanhola e desfrutar de bons anos em Cuba, antes de Fidel Castro tomar a ilha de assalto.
Os primeiros livros dele que li foram "Ter e não ter" de 1937 e "O velho e o mar" de 1952. Meu costume de ler alguns capítulos por dia, antes de dormir, foi interrompido em ambos, quando adentrei nas madrugadas aprisionado pela narrativa sem fios soltos e brechas para distrações. Pensei comigo: "Caramba, como vou desenvolver estilo próprio depois de ler esse cara?"
E deste modo chegamos em "Paris é uma festa" - um livro póstumo de Hemingway lançado em 1964. Provavelmente foi escrito como uma carta testamento para os herdeiros de sua escola literária, embora o autor deixava claro que revisitaria passagens posteriores de sua vida. Na obra ele relata o primeiro período em que viveu na cidade, na década de 1920, integrando a "Geração Perdida" de jovens escritores que aparentemente se desorientaram depois da Primeira Guerra.
Nas 250 páginas das memórias de Hem - apelido pelo qual era conhecido na época - não há sequer uma linha sobre a Torre Eiffel, a Avenida Champs Elysées e seu Arco do Triunfo. O porte de pugilista e a origem relativamente rude do autor, nascido no estado americano de Illinois, não faziam dele um cafona deslumbrado. Hemingway e sua esposa estavam em Paris, com um filho a tiracolo, pois Ernest queria ser um grande escritor - e os melhores escritores e poetas afluíam para Paris, junto com os pintores de vanguarda.
A Paris retratada por Hem já não existem mais. Era a Paris dos cafés baratos, onde alguém podia sentar horas a fio numa mesa, sorvendo apenas um conhaque. Os bairros pobres e boêmios, pelos quais o autor caminhava para descansar a cabeça, são descritos de forma sucinta - o suficiente para compormos o cenário em nossa mente. Enquanto isso, ele demonstra seu método de trabalho, intercalando períodos de escrita com visitas aos museus, parques e corridas de cavalo.
Hemingway também lia outros autores, desde os clássicos até os desconhecidos de seu tempo. Segundo ele, isso era útil para que a água pudesse minar na sua fonte de inspiração. Experimente tirar água sem parar e fonte secará. Por isso, de acordo com o autor, não se deve ficar debruçado sobre um texto constantemente.
O deleite continua com as idas de Hem aos sebos onde comprava livros baratos, aos restaurantes imundos onde conversava com desocupados; e aos estúdios e apartamentos de amigos escritores, poetas e artistas plásticos - com quem passava horas conversando sobre quadros, livros, traduções, editoras, tipos de encadernação, críticos de literatura e tudo o mais relacionado ao ofício de escrever sob a inspiração de obras de arte, vinho, cerveja e bebidas mais fortes.
O autor fez amizade com uma bibliotecária que, além de livros, lhe emprestava dinheiro. Com o também renomado Scott Fitzgerald, dividiu o cockpit de um Renault descapotado pelas estradas do interior da França, trocando impressões sobre a maneira de escrever os contos que tentavam vender para revistas literárias.
Retratando as estações do ano e sua influência sobre os hábitos dos moradores de Paris, Hem deságua na conclusão de seu primeiro grande sucesso, o romance "O sol também se levanta" - revisado e reescrito previamente numa estação de esqui austríaca para onde o autor fugia com sua família nos invernos.
Quisera ter lido este livro há alguns anos e teria economizado alguns adjetivos em meus textos. Talvez não estivesse preparado para tanto, mas fico feliz em saber que também tenho amigos escritores e também faço minhas caminhadas para espairecer - não pelos parques de Paris, mas pelas calçadas de Paulínia. A relação entre as cidades está na mesma proporção entre o meu esforço e o talento de Ernest Hemingway - só não quero terminar como ele.
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